No dia 1º de janeiro de 2017, a prefeita de Novo Hamburgo, Fátima Daudt (PSDB), e a recém-eleita presidente da Câmara de Vereadores, Patrícia Beck (PPS), estavam radiantes. Eram rasgados elogios para os dois lados na sessão da Câmara de Vereadores. Pela primeira vez na história, o município tinha duas mulheres no comando destes dois poderes. Inquestionavelmente, um momento histórico. Esse ambiente amistoso, cordial e de proximidade ficou para trás.
Nesta semana, explodiu uma crise de relacionamento entre o governo Fátima Daudt e o PPS – partido de Patrícia Beck e do vice-prefeito e secretário municipal da Saúde, Antônio Fagan. Incomodado com supostos ataques e posturas agressivas de Patrícia em relação ao trabalho da Prefeitura – principalmente na pasta da Saúde -, o Poder Executivo anunciou o rompimento com a vereadora. Na segunda-feira, foram oito exonerações de indicações da parlamentar e filiados do PPS.
A resposta do partido veio nesta terça-feira. A Executiva do PPS esteve reunida e divulgou “Carta Aberta ao Povo de Novo Hamburgo”. No documento assinado pelo presidente Cléber Moura, consta a decisão “pelo afastamento oficial do atual governo municipal”. Oficialmente, o partido entregou a área da saúde – Secretaria Municipal da Saúde e Fundação de Saúde Pública de Novo Hamburgo – ao governo Fátima Daudt. Alguns integrantes do PPS, contudo, pretendem seguir integrando o Executivo. Estes infiéis poderão ser expulsos do PPS.
Patrícia Beck comenta que os ruídos mais fortes com o Poder Executivo começaram há cerca de dois meses, após perceber que diálogos e reuniões para corrigir algumas situações na Secretaria da Saúde e na Fundação de Saúde não estavam representando melhorias. Ela foi à tribuna da Câmara de Vereadores trazer algumas inconformidades. A partir dali, já começaram algumas exonerações e o clima foi esquentando. “Faltou diálogo e respeito. Nosso partido não estava sendo consultado para contribuir com sugestões e ajudar na gestão. Ninguém da sigla, por exemplo, foi consultado para o Plano Plurianual (PPA)”, destaca Patrícia. “Começaram a demitir quem agitou bandeira durante a campanha e tinha muita capacidade. Alguns estão engravatados, sentados em confortáveis cadeiras na Prefeitura, graças ao esforço de muitos que estão sendo exonerados”, completa.
A presidente da Câmara de Vereadores não conversa há dois meses com a prefeita Fátima Daudt. O último diálogo foi no período da inauguração das melhorias no Parcão. Ela garante que buscou levar as informações para melhorar o governo, mas não foi ouvida como gostaria. “Alguns secretários estão blindando a prefeita. Não acredito que ela saiba tudo que está acontecendo”, analisa a vereadora. Mesmo assim, ela tem uma visão otimista em relação ao trabalho do Poder Executivo. “Tem tudo para ser um ótimo governo, com boas ações”, destaca.
Ao mesmo tempo em que elogia e torce por um bom governo – mesmo com a ruptura -, a presidente da Câmara de Vereadores lamenta algumas exonerações. “Temos servidores que estão sendo disputados dentro das secretarias pela qualidade do trabalho, mas isso não foi levado em conta. Quem perde é a cidade”, lamentou. Quem está ganhando espaço dentro do governo Fátima Daudt é o PTB – do vereador Naasom Luciano – e o PMDB, que tem a maior bancada na Câmara: Gerson Peteffi, Inspetor Luz, Raul Cassel e Sergio Hanich.
RUPTURAS
Essa não é a primeira ruptura de Patrícia Beck na sua curta trajetória política. No seu primeiro mandato, ela se elegeu pelo PTB – aliado do prefeito Luis Lauermann (PT) -, mas rompeu com o Executivo. Ela inclusive concorreu como suplente ao Senado na chapa do ex-governador Olívio Dutra (PT). Na Câmara, Patrícia tinha grande alinhamento com o vereador Issur Koch (PP). Fizeram uma dupla afinada e se tornaram referência na atuação parlamentar. Mas, na eleição para a Mesa Diretora, se afastaram com muitas alfinetadas e indiretas – embora Issur não tenha sido eleito pela traição do colega de partido Vladi Lourenço (PP), que não votou no progressista. E, agora, Patrícia, rompe com o governo com o qual foi fundamental para ajudar a eleger em outubro de 2016. Por que tantas rupturas em tão pouco tempo, vereadora? “Tenho posicionamento e minha coerência é com o povo”, resume ela .
PREFEITA FÁTIMA DAUDT
“Não posso aceitar que uma crise dentro do PPS chegue até a administração. A cidade conta muito com nosso trabalho. Não é uma crise dentro do governo, mas sim dentro do PPS”. É dessa forma que a prefeita Fátima Daudt resumiu a situação para a reportagem do Portal Martin Behrend. Segundo ela, desde antes da eleição, estava acordado que o PPS iria estar mais atuante dentro da saúde e o nome de Antônio Fagan foi o indicado por ser médico e por ter atuação dentro do Hospital Municipal. “Ele (Fagan) tem nossa confiança, é um grande parceiro do nosso governo”, elogia Fátima.
Fátima Daudt diz que teve conhecimento dos atritos entre Fagan e Patrícia há algumas semanas, e sempre se prontificou a buscar soluções com a parlamentar – embora não se falem há dois meses. A chefe do Executivo explica que houve reunião para encaminhar alguns pontos trazidos pela vereadora. Mas a prefeita reforça que a questão política precisou ser estancada e por isso foram realizadas as exonerações. “Tomamos medidas para afastar a crise de dentro da administração. A cidade tem colhido resultados positivos e seguiremos trabalhando para melhorar o atendimento à população”.
Fátima e Patricia são chefes de poderes. Vão se cruzar muito por eventos e solenidades. Tomara que esse desgaste fique no campo pessoal ou de partidos. Para o bem de Novo Hamburgo, a administração não pode ser afetada por esses atritos. Se isso ocorrer, será uma tremenda irresponsabilidade.

























